Cresce o número de pedidos de refúgio no Brasil e no Mundo

Dados do relatório “Tendências de Asilo 2014”, lançado este ano pelo ACNUR, apontam um aumento expressivo estimado em 866 mil novos pedidos de refúgio em países industrializados, sendo o maior número nos últimos 22 anos.

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Segundo o relatório “Tendências de Asilo 2014” – lançado pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) – é estimado em 866 mil o número de novos pedidos de refúgio apresentados em países industrializados durante todo o ano passado. Comparado ao ano de 2013, com 596 mil registros, o dado indica um acréscimo de 45%.

Entre as justificativas para esse aumento significativo – o número de pedidos em 2014 é o maior desde 1992, quando do início do conflito Bósnia-Herzegovina – estão as guerras na Síria e no Iraque, somadas aos conflitos armados, violação de direitos humanos e a deterioração das condições humanitárias e de segurança em outros países.

Das nacionalidades que mais solicitaram refúgio, os sírios se destacam com quase 150 mil pedidos, a frente dos iraquianos com quase 69 mil pedidos. Por fim, os afegãos somam 60 mil, seguidos por cidadãos da Sérvia (e do Kosovo) e da Eritreia. Dos países industrializados que mais receberam solicitações destacam-se a Alemanha e os Estados Unidos, com mais de 173 mil e 121 mil pedidos, respectivamente.

Fazendo um histórico sobre a atuação do Brasil no que tange ao tema dos refugiados, o país sempre teve um papel pioneiro e de liderança, sendo signatário dos principais tratados internacionais de direitos humanos e parte da Convenção das Nações Unidas de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados e do seu Protocolo de 1967.

O Brasil também possui uma lei de refúgio avançada (nº9.474/97), contemplando os principais instrumentos regionais e internacionais sobre o tema. Um ponto fundamental na lei é a ampla definição de refugiado estabelecida na Declaração de Cartagena de 1984, que considera a “violação generalizada de direitos humanos” como uma das causas de reconhecimento da condição de refugiado. Além disso, a lei também criou um órgão interministerial presidido pelo Ministério da Justiça, o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), responsável pela formulação de políticas para refugiados no país, com a elegibilidade, mas também com a integração local de refugiados, em conjunto com ONGs parceiras.

Entre os países emergentes, O Brasil foi o país que mais contribuiu em termos financeiros com o ACNUR, contabilizando US$ 1 milhão, em 2013. Além do apoio financeiro, o Brasil exerce uma influencia regional e tem apoiado o ACNUR em promover a proteção internacional em diferentes fóruns. Já em relação aos refugiados reconhecidos pelo Brasil, o número no final de 2014 chegou a 7.289 indivíduos, sendo os sírios o maior grupo (20% do total). Em seguida estão os refugiados da Colômbia, de Angola e da República Democrática do Congo.

Por mais que o Brasil seja internacionalmente reconhecido como um país acolhedor, o refugiado que aqui reside encontra algumas barreiras na questão cultural e linguística. Além disso, também enfrenta problemas comuns aos brasileiros: dificuldade em conseguir emprego, acesso à educação superior e aos serviços públicos de saúde e moradia.

Fontes:

http://www.acnur.org/t3/portugues/recursos/estatisticas/dados-sobre-refugio-no-brasil/

http://nacoesunidas.org/numero-de-pedidos-de-refugio-no-mundo-em-2014-e-o-maior-desde-1992-diz-novo-relatorio-da-onu/

http://www.acnur.org/t3/portugues/informacao-geral/o-acnur-no-brasil/

Governos municipais e estaduais na direção de políticas inclusivas para a população transexual

No Brasil, governos municipais e estaduais aprovam programas voltados para a população transexual, visando à inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho e universidades públicas. No âmbito internacional, Suécia também toma medidas inovadoras.

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Somente no Brasil, entre janeiro de 2008 e abril de 2013, registraram-se 486 mortes de transexuais. Esses números colocam o país na posição de campeão da discriminação contra transexuais no mundo. Para enfrentar esse problema, junto a medidas do governo federal (como a inclusão do nome social nas provas do ENEM), governos municipais e estaduais vêm desenvolvendo políticas e programas de combate e incentivo à aceitação da população transexual na sociedade.

Em 2014, foi aprovado projeto no estado da Bahia que estipula que, a partir de 2015, transexuais podem se matricular na Universidade Federal da Bahia e na rede pública de ensino estadual utilizando seus nomes sociais. Outro exemplo é o do município de São Paulo que, também em 2014, se colocou como o primeiro órgão municipal a reconhecer em documento oficial uma transexual utilizando seu nome social, ao nomear, com publicação no Diário Oficial, sua contratação para a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Em janeiro de 2015, durante as comemorações do Dia Nacional da Visibilidade Transexual, o governo municipal anunciou o Programa Transcidadania, que visa incluir mulheres transexuais no mercado de trabalho. Durante dois anos, o Programa proverá essas mulheres com uma bolsa mensal no valor de um salário mínimo, desde que elas frequentem aulas de educação para adultos nas escolas municipais. Grande parte dessas mulheres (estima-se que, no total, 4 mil mulheres transexuais vivam na Cidade de São Paulo) vive hoje em situação de rua ou de prostituição.

Outro exemplo é do estado de São Paulo que, em 2001, promulgou a Lei nº 10.948/01, com o objetivo de criminalizar a discriminação contra a população homossexual e transexual.

Um exemplo internacional de política inovadora para o reconhecimento da existência da população transexual é o da Suécia que, no dia 15 de abril de 2015, lançará uma versão atualizada do Dicionário Oficial do país, contendo um novo pronome de tratamento neutro. O novo pronome poderá ser usado em casos de pessoas de gênero desconhecido, transexuais ou nos casos em que o locutor não considere a especificação do gênero relevante na sua fala. O pronome hen, em adição aos pronomes han (masculino) e hon (feminino) já é utilizado pelos movimentos sociais desde a década de 60 e agora é reconhecido em publicação oficial. A luta da população transexual é, principalmente, pelo reconhecimento da sua existência. Essas políticas e projetos inovadores são um grande passo para tal objetivo, elevando a consciência da sociedade e trabalhando para a inclusão social de milhares de pessoas que hoje vivem na marginalidade.

Fontes:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39934/suecia+cria+pronome+de+genero+neutro+que+sera+usado+para+se+referir+a+pessoas+trans+no+pais.shtml

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/prefeitura-lanca-programa-de-insercao-social-as-mulheres-transexuais-582.html

http://www.edicaoms.com.br/brasil/brasil-e-o-pais-com-mais-mortes-de-transexuais-do-mundo

Financiamento do transporte público será tema de mesa no III EMDS. Veja como São Paulo tem refletido sobre o tema.

O Terceiro Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável (EMDS) começa no dia 7 de abril e reunirá até o dia 9, em Brasília, gestores públicos das três esferas de governo para discutir agendas propositivas para o desenvolvimento local sustentável; intercambiar boas práticas e experiências.

Entre as muitas pautas envolvidas, está a mobilidade, que contará com a sala temática “O esgotamento do modelo de mobilidade urbana e a necessidade de pactuação federativa”, marcada para o dia 8. Uma das mesas aborda a questão do financiamento do transporte coletivo.

Para aquecer esta discussão, o blog do FONARI compartilha reflexão em relação ao tema, especialmente no que se refere à bandeira sustentada por diversos prefeitos brasileiros a respeito da municipalização da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE).

Em entrevista concedida à Secretaria de Relações internacionais e Federativas da Prefeitura de São Paulo, Ciro Biderman, pesquisador da área de transportes e chefe de Gabinete da SPTrans, colocou que a tributação poderia ser uma fonte interessante de recursos para a cidade. “O que tem sido feito no mundo é uma variação da CIDE. Bogotá financiou uma parte do TransMilenio com uma taxa sobre a gasolina. Na Europa, muitos países têm taxas especiais sobre a gasolina e aplicam parte disso para subsidiar o transporte público.  Além de não ser nada novo, é absolutamente desejável”, avaliou.

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Em Bogotá, 85% da população se locomove pelo transporte público. O TransMilenio, sistema que coordena os corredores de ônibus da cidade inaugurado no ano 2000, conta atualmente com 112,9 quilômetros de extensão e 134 estações ou pontos de parada. Desde 2003, os investimentos vêm da taxa de 25% sobre o combustível e são repassados aos municípios.

Na Europa, Bruxelas tem a gasolina entre as mais caras do mundo, porque parte do seu valor é transformado em recurso para que o governo local possa investir em transporte público e melhorias ambientais. A cidade está empenhada em reduzir entre 80% e 95% as emissões de carbono até 2050.

Estudo realizado pela FGV em 2013 mostrou que um aumento de R$ 0,50 do litro da gasolina levaria a um decréscimo de R$ 1,20 no preço da passagem, o que beneficiaria 78% da população. A medida levaria também à deflação de 0,026%.

 

Recursos para Infraestrutura: o FUNDURB

A tarifa, no entanto, não é uma fonte de recursos para investimentos em infraestrutura, uma vez que cobrem apenas custos operacionais. Para um planejamento mais eficiente da infraestrutura, Ciro Biderman defende maior integração entre transportes e urbanismo, por entender a necessidade de adensar eixos próximos a transporte público.

“Quando você dá uma infraestrutura de transporte público, preferencialmente de BRT (Bus Rapid Transit), isso significa uma valorização dos imóveis, em princípio, gratuita”. Biderman se refere a incentivos ao adensamento de áreas próximas a eixos de mobilidade previstos como diretriz do Plano Diretor Estratégico (PDE). Em corredores de transporte, o potencial de construção ficará em até 4x o tamanho do terreno; ao passo que dentro dos bairros o coeficiente será o mínimo 1, ou seja, a construção será de apenas 1x tamanho do lote. Em ambos os casos, construções superiores ao coeficiente mínimo deverão pagar a chamada Outorga Onerosa, que comporá os recursos encaminhados ao Fundo de Desenvolvimento Urbano (FUNDURB).

Na esfera do financiamento, o PDE prevê que 30% do FUNDURB sejam destinados à melhoria da infraestrutura de transporte público, cicloviário e de pedestre – algo que Biderman considera “muito promissor”.  “Mecanismos de captura de mais-valia urbana são fontes fundamentais para ajudar a financiar o investimento em transporte público”, concluiu.

Especialista em integração regional sul-americana participa de evento na Prefeitura de São Paulo

Olivier Dabène, professor da instituição francesa Sciences Po, esteve na Prefeitura de São Paulo nesta terça-feira (10), onde  ministrou palestra sobre cooperação regional sul-americana durante o Diálogos São Paulo no Mundo, iniciativa da Secretaria de Relações Internacionais e Federativas que convida periodicamente especialistas  em temas relacionados à gestão das cidades e ao cenário internacional.

Dabène avaliou que, ao contrário da Europa, o continente tem passado desde a metade do século XX por ondas de assinaturas de tratados e processos sub-regionais. A primeira onda foi marcada pelo discurso desenvolvimentista e protecionista dos anos 60, marcada pela influência da CEPAL, seguida por uma segunda etapa de revisão de tratados e flexibilização de prazos. A terceira onda foi a constituição do Mercosul num esforço de criar um regionalismo aberto e de inspiração neoliberal. Finalmente, destacou a atual conjuntura da integração, guiada por um projeto crítico ao neoliberalismo e liderada por governos progressistas.

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O professor notou que o que caracteriza o regionalismo sul-americano são processos pouco institucionalizados e com forte participação de atores não estatais, como a academia. Dabène lembrou o Grupo de Montevidéu, constituído por acadêmicos logo no início do Mercosul e abordou a questão de como atores com interesses mais focados e de ordem econômica ainda preferem negociar nacionalmente. “Atores como a FIESP, por exemplo, tendem a pressionar o governo brasileiro devido à posição dominante que ocupa [no bloco]”, analisou.

Na comparação com a Europa, a atual crise no velho continente revela, na opinião do professor, algumas brechas na alta institucionalização e burocracia supranacionais. “A Europa pode estar indo para o modelo latino-americano, não o contrário”, disse.

Olivier Dabène dirigiu o Campus Euro-latino-americano da Sciences Po (Poitiers), entre 2006 e 2011, bem como o departamento de Ciências Políticas da instituição em Paris, de 2010 a 2012. Está no país a convite do Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (CEFOR), onde ministrou um curso de Política Contemporânea na América Latina.

O professor tem laços com a cidade de São Paulo, tendo já trabalhado junto ao corpo consular francês na capital. No campo acadêmico, analisou políticas públicas ligadas a comunidades periféricas implementadas pela gestão Marta Suplicy no livro “Exclusão e Política em São Paulo: os outsiders da democracia”.

Além de servidores da Prefeitura de São Paulo, estiveram presentes nesta edição do Diálogos gestores dos municípios de Limeira e São Bernardo do Campo. São Paulo, que coordena o FONARI no biênio de 2014-2015, passa a convidar os gestores municipais da Região Metropolitana e cidades próximas para acompanhar os encontros.

Balanço FONARI 2014

A Cooperação Internacional Descentralizada é um tema que cada vez mais vem ganhando espaço na realidade das cidades e estados brasileiros. Já se tornou evidente o papel transformador que a atuação internacional desempenha no cotidiano dos governos subnacionais, mas muitos avanços ainda precisam ser feitos.

Ciente disso, o FONARI realizou e apoiou diversos eventos que trataram de discutir a importância das Relações Internacionais para as políticas públicas municipais e estaduais. Desta forma, gostaríamos de agradecer a todos os membros do FONARI que participaram ativamente de nossos encontros e compartilhar com todos o Balanço do ano de 2014. Esperamos que 2015 possa ser um ano de ainda mais atividades!

Cordialmente,

Coordenação Geral do FONARI

Balanço FONARI 2014

UNESCO abre chamada para participação no I Fórum de Jovens Especialistas sobre gestão sustentável de patrimônios culturais

Organizado pela Comissão da Alemanha para a UNESCO e pelo governo do estado de Rhineland-Palatinate, o I Fórum de Jovens Especialistas reunirá pessoas de 20 a 30 anos, de diversas áreas de estudos, para trabalhar ao redor de uma gestão sustentável dos patrimônios culturais do mundo.

O I Fórum de Jovens Especialistas abriu inscrições para evento de discussão da gestão sustentável de patrimônios culturais mundiais, marcado para acontecer entre os dias 18 e 29 de junho de 2015, nas cidades de Koblenz e Bonn (Alemanha). A iniciativa foi organizada pela Comissão da Alemanha para a UNESCO e pelo governo do estado de Rhineland-Palatinate (Alemanha), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e com a ONG Voluntários do Patrimônio Europeu, e acontecerá paralelamente à 39ª Sessão do Comitê do Patrimônio Cultural da UNESCO.

Os jovens participantes do evento analisarão a implementação da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural de 1972 na Alemanha. Entre as atividades dos participantes estarão a discussão dos impactos de uma gestão sustentável dos patrimônios culturais mundiais em workshops, a formulação de iniciativas sustentáveis de gestão do patrimônio cultural nos diferentes países de origem dos participantes e a elaboração de uma declaração final a ser endereçada ao Comitê do Patrimônio Cultural. Os participantes também farão parte de uma simulação de uma sessão do Comitê.

Os candidatos devem ter entre 20 e 30 anos e ser fluentes em inglês. Dentre os diversos países dos quais se aceitarão candidatos estão Brasil e México, além dos países que fazem parte do Comitê do Patrimônio Cultural. As áreas de estudo nas quais os candidatos devem estar envolvidos variam de arquitetura a política internacional e antropologia. Mais informações podem ser encontradas no site oficial do chamamento.

O prazo final para o envio de candidaturas é 23 de março. A aplicação deve ser enviada com uma carta de motivação e um currículo da pessoa interessada.unesco

A arquiteta e pesquisadora Camille Bianchi fala ao Blog do FONARI

O FONARI conversou com a arquiteta e pesquisadora Camille Bianchi, cofundadora do Collectif Readymake. Camille falou ao nosso blog sobre o conceito de inteligência territorial, sua aplicação na Grand Paris e a descentralização do planejamento urbano na França. Confira a entrevista!

 

A inteligência territorial surgiu onde e como? Que necessidades ela vem suprir?

A inteligência territorial, pelo menos na França, tem a ver com a política de descentralização da governança. Historicamente, o planejamento urbano era executado pelo governo francês, mas nos anos 70, se não me engano, houve uma primeira tentativa de passar o planejamento e a gestão urbana do estado para as regiões, que são outro recorte administrativo – que seria como o governo estadual de vocês. Com isso esperava-se pegar os departamentos, que são recortes ainda menores incluídos dentro de uma região. Essas várias camadas de governança começaram a ter uma importância maior para o planejamento e isso realmente teve sentido a partir dos anos 90 – quando as regiões ficaram responsáveis pela emissão do que aqui seria o plano diretor de vocês. Na minha opinião, a inteligência territorial teve muito a ver com essas transferências de poder, porque a reflexão do planejamento urbano ficou mais acessível para pessoas que não faziam parte do poder político. E elas começaram a se interessar em mobilizar o conhecimento de profissionais que não estavam envolvidos nas redes políticas, mas que estavam trabalhando com questões territoriais. O melhor exemplo que tenho hoje é a pesquisa do Grand Paris, porque é a primeira deste porte a abordar a região parisiense inteira e ela mobilizou tantas pessoas distintas em termos de ferramentas e expertise profissional que acho ser o melhor exemplo contemporâneo.

E a Grand Paris começa em Janeiro do ano que vem?camille

Não, esta é a terceira fase que está em andamento. Começou na verdade em 2010, sob o presidente Sarkozy, e foi uma decisão do governo francês que queria incentivar a importância de Paris no âmbito internacional. É uma pesquisa internacional para repensar a cidade e o planejamento futuro da região até 2030.

Depois, quando a presidência passou para esquerda, teve a primeira mudança de governança da pesquisa – agora quem coordena é a região Île-de-France, ainda com o governo francês e o consórcio de munícipios da região parisiense.  A cabeça que dirige a pesquisa tem vários recortes políticos e é muito descentralizada. Em 2012, quando entramos, teve início a segunda fase, e entregamos o trabalho em 2013, quando começa a terceira fase.

Esta terceira fase tem um impacto mais internacional, pois a vontade dos coordenadores desta pesquisa é abrir um pouco estas questões com especialistas estrangeiros. Por exemplo, queremos montar uma parceria com São Paulo, devido aos trabalhos interessantes feitos por aqui e que tem um vínculo muito grande com o que a Grand Paris levantou.

Estamos falando em governança e você está dizendo que existe uma descentralização e que a inteligência territorial entende fluxos já descentralizados. A finalidade dela é mapear esses fluxos?

Não é só fluxo. Na verdade, ela tenta entender os movimentos territoriais em termos também de hábitos dos moradores; além de redes culturais, laborais e educativas. No que se refere à governança, ela é sim descentralizada. Por exemplo, na França, como temos muitos municípios, o funcionamento é um pouco diferente daqui – só na região de Île-de-France temos 1180 munícipios e na França toda temos 36.000. Imagine a quantidade de decisões que tem que ser tomadas e cada município tem que ter uma lei de zoneamento!  É um sistema espalhado de governança e precisamos tentar achar como podemos articular as questões e as intenções de planejamento na escala das regiões e até nacionais com os contextos localizados dos municípios que contam 500 ou 1000 habitantes e que estão fora destas questões internacionais. E essa é a proposta do ponto de vista que escolhemos: como incluir quem está fora dos grandes pensamentos de planejamento – como, por exemplo, os pequenos munícipios; as áreas periféricas; os territórios suburbanos, etc. E isso de certa forma para dizer que a governança é compartilhada e temos que achar esta forma de articulação entre várias camadas.

Então vocês estão pensando em articulações bem sofisticadas neste mapeamento…

Isso. É como usar esta técnica que se chama bottom- up e que se destina ao levantamento de   dados para entender como tudo funciona na escala local para, ao subir estas informações para uma escala maior de planejamento, conseguir incorporá-los à lógica de pensar o território geral. Geralmente, o que acontece é o contrário, o top-down, em que olhamos o território; tomamos decisões territoriais gerais e depois aplicamos isso na escala local. A nossa técnica, ao contrário, quer entender na escala local para depois criar regras de planejamento gerais.

Então é um processo prescritivo?

Falamos mais em elaboração de diretrizes do que de regras, que é uma noção um pouco rígida. Em francês dizemos prospectivo, ou seja, um entendimento futuro da evolução do território.

Vocês não estão constituindo uma autoridade metropolitana; vocês dão subsídios para ela.

Exatamente. Tem um debate que vai ser aberto daqui a pouco no âmbito da pesquisa, porque há a chamada Lei da Metrópole da Grand Paris, que será adotada em 2016. A Metrópole do Grand Paris é um novo recorte administrativo que inclui Paris e a primeira coroa dos munícipios periféricos ao redor da cidade. É uma lei importante, porque é a primeira vez que se pensa além dos limites administrativos da capital — é como se fosse uma “super Paris”. A lei está diretamente vinculada a esta pesquisa, porque como foi demonstrado há um sistema de fluxos territoriais que vai além das lógicas administrativas, que se movem sem necessariamente respeitar fronteiras municipais e têm uma lógica diferente da utilizada pela administração do território. É interessante porque existe uma dicotomia entre os dois: quem usa o território não é quem o administra. Há este problema de como juntar os dois e adaptar a administração do território a partir da sua própria forma de funcionamento. Isso traz eficiência em termo de planejamento e de entendimento econômico, porque você o entende como ele funciona de verdade; não como está administrado.

A lei do Grand Paris responde melhor à amplitude desta capital. Supera muito mais o limite de Paris e inclui em termos de fluxo de polaridade as cidades ao redor dela. Agora, tem um problema aí: ainda que para nós a questões dos territórios mais periféricos seja importante, eles estão fora deste recorte. Então esta lei vai resolver certos pontos, mas ela não vai responder a todas as perguntas que levantamos durante a pesquisa.

O que são os territórios periféricos? Seriam os subúrbios?

Os subúrbios na França correspondem ainda à mancha urbana, dentro da área metropolitana. Os territórios periféricos correspondem ao que chamamos de densidade espalhada, que têm densidade baixa; espalhada em territórios agrícolas ou industriais, podendo ser também pequenos vilarejos ou cidades-dormitórios.

Esta região ao redor der Paris obedece um comportamento radiocêntrico?    

Sim e é interessante. Como tivemos um sistema de governança muito centralizado antes, com o poder sempre em Paris, isso determinou o perfil de todas as redes de transporte; o viário; as polaridades de trabalho.

Houve várias tentativas de descentralização a partir dos anos 70, com a construção da chamada “Villes Nouvelles”, cidades espalhadas ao redor de Paris para desafogar a cidade.  Mas isso ficou dentro da macha urbana ainda. Não houve uma política de descentralização. A rede de transportes, por exemplo está configurada hoje de forma radiocêntrica. Mesmo quem quer se mover de subúrbio para subúrbio tem que passar de novo pelo centro de Paris, o que toma muito tempo, porque não tem um sistema rodoanel.

Agora tem um projeto que está em obra no qual a gente trabalhou chamado Grand Paris Express, o nome de uma nova rede de metrô rodoanel. Ela vai ficar na mancha urbana e vai abastecer o subúrbio sem passar pelo centro da capital. Será o maior projeto viário francês.

O que você relata é muito parecido com o que a gente sofre aqui em São Paulo, especialmente no que se refere à mobilidade. Na França, quais são os transtornos para a população da mancha urbana?

É um pouco parecido com o que acontece em São Paulo. Há um fluxo pendular muito forte que sai da mancha em direção à Paris e que, à noite, volta aos subúrbios.  Essa questão de como você espalha as polaridades econômicas para gerar atratividade dentro desses territórios é fundamental, porque tudo está centralizado demais, todo mundo vai para a capital, onde tem todos os serviços e onde o solo está muito caro. Mas a questão é como a gente pode desenvolver polaridades menores e mais distribuídas dentro do território. A ideia não é planejar a região toda como se fosse de uma característica urbana só; a gente tem que preservar as características de cada território. Por exemplo, o subúrbio, que é uma área mais agrícola com várias florestas ricas em recursos naturais:  não se trata de construir e tirar a natureza e propor novos empreendimentos fora da rede de abastecimento, de transporte etc. A ideia é considerar essas características territoriais e tentar adaptar novas forma de trabalhar e conviver nesses territórios – não tem como planejar da mesma forma a primeira mancha urbana e os territórios suburbanos. Não dá para colocar um metrô dentro dessas redes sobre esses territórios, porque não faz sentido e seria muito caro, porque são espaços enormes. Você tem que planejar de outra forma. E todo o trabalho que foi feito pela equipe do estudo era justamente entender qual leitura do território a gente tem que ter para achar ferramentas de planejamento diferentes das ferramentas que a gente tem para o centro de Paris ou para a primeira coroa.

Estamos falando de uma noção que vem para ajudar na grande escala. Mas a inteligência territorial pode ser usada em munícipios menores? Não para integrá-lo numa rede maior, mas para pensar especificamente no local?

Sim, porque a inteligência territorial tem uma versatilidade e pode mudar de escala e este é o objetivo dela também. De trazer um entendimento de várias escalas do território. Na escala do município é sempre interessante, porque é uma abordagem mais prática – você chega mais rápido à escala e pode passar para a fase executiva mais rápido, propondo um tipo de planejamento urbano ou periurbano. E aí temos uma capacidade maior de incorporar a ferramenta participativa. Falar com a comunidade, por se estar na escala do município, torna mais fácil traduzir os desejos dos moradores em ferramentas de planejamento. Claro que tudo depende dos desafios, das perspectivas e da demanda do seu cliente.

Só para fechar, você citou o caso da Grand Paris, que conhece a fundo, mas em quais outras cidades vocês estão empregando este conceito de forma bem sucedida?

Acho que em Bruxelas, que também tem esse plano; Londres; Amsterdã, onde eles fizeram um planejamento geral muito interessante; na América do Sul acho que não tenho conhecimento. Eu conheço mais casos europeus.

Nos EUA esse conceito é difundido?

Eu sei que fizeram alguns estudos para Nova York, mas era mais para gestão da água.

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