Nós, brasileiros, somos latino-americanos? Entrevista com Maria Antonia Dias Martins

A identidade latino-americana não é consensual entre todos os brasileiros. Diversos fatores históricos, políticos e culturais fizeram com que os cidadãos do país não se enxergassem como integrantes de uma comunidade maior que unifica pessoas de diversas nações em um bloco regional. A própria maneira de denominar a região já foi alvo de diversas controvérsias e o termo América Latina se consolidou apenas no pós-Segunda Guerra Mundial.

“A CEPAL foi uma das primeiras organizações a convencionar o termo América Latina para os países situados numa mesma região geográfica, com um passado histórico comum e tendo uma economia considerada subdesenvolvida e periférica dentro do capitalismo mundial. A força desta denominação não estava no passado colonial, mas no conjunto de problemas semelhantes que estes países deveriam enfrentar, incluindo sua relação com o vizinho mais próspero, os EUA”, diz a Drª Maria Antonia Dias Martins, professora de História e Política Latino-Americana do Centro Universitário Fundação Santo André, em entrevista à AMERI.

Em alguns escritos, como os de José Marti, utiliza-se a expressão Nuestra América. Existem diferenças conceituais entre os termos América Latina e Nuestra América?
Desde a chegada dos primeiros europeus ao continente Americano, sua denominação esteve em debate. Originalmente os espanhóis chamaram de Índias. Depois, veio a expressão Novo Mundo e por fim América. Índias e Novo Mundo eram denominações originadas da perspectiva dos europeus para nosso continente. Não partia da autodenominação que os habitantes daqui tinham de suas terras ou de sua gente. América foi em homenagem à Américo Vespúcio, europeu. As peculiaridades inerentes ao continente não serviram de base para qualquer denominação.

Após a independência das nações americanas, muitos intelectuais e políticos sentiram necessidade de diferenciar as regiões do continente e para isso nomes como Hispano-América, Ibero-América e América Latina passaram a ser adotados. No século XX outros nomes foram propostos para designar os países situados abaixo do Rio Grande, como Indo-América. A nomenclatura não está restrita a uma questão semântica simplesmente, revela também entendimento da identidade destes países e povos, além de estar vinculada a projetos políticos que diziam respeito ao futuro da região. Os termos Hispano-América ou América Ibérica priorizavam os vínculos culturais dos países com suas antigas metrópoles Espanha e Portugal. Indo-América (proposta de Raul Haya de La Torre) propunha maior visibilidade ao indígena na definição desta parte do continente Americano.

A necessidade de um termo que identificasse os países abaixo do Rio Grande era incontestável, no entanto havia discussões sobre o critério a ser adotado para escolha deste nome. Somente após a II Guerra Mundial o termo América Latina passou a ser utilizado sem maiores contestações. A CEPAL foi uma das primeiras organizações a convencionar o termo América Latina para os países situados numa mesma região geográfica, com um passado histórico comum e tendo uma economia considerada subdesenvolvida e periférica dentro do capitalismo mundial. A força desta denominação não estava no passado colonial, mas no conjunto de problemas semelhantes que estes países deveriam enfrentar, incluindo sua relação com o vizinho mais próspero, os EUA.

Já o termo Nuestra América, de José Martí, expressa um apelo à apropriação da América pelos americanos situados ao sul dos EUA. Também é um chamado à união destes povos na luta pela independência cultural e econômica, cuja maior ameaça é o imperialismo norte-americano.

Em termos práticos, a América Latina de fato existe ou se configura mais como um ideal, um projeto político e cultural a ser buscado? América Latina consegue atuar como um bloco no cenário internacional e nos órgãos de governança global?
A América Latina, como convencionou a CEPAL, ou seja, um conjunto de países que estão localizados numa determinada região geográfica, com problemas estruturais e econômicos semelhantes, existe de fato.
No entanto a América Latina ainda não tem uma política de atuação em bloco. A OEA é uma instância bastante importante de política regional do continente, mas também é um espaço em que os EUA mantêm notório poder de influência. A Nuestra América proposta por Martí ainda é um ideal.

Muitos brasileiros e brasileiras não se enxergam como latino-americanos/as. Em sua opinião, por que isso ocorre? As populações dos países vizinhos se enxergam como latino-americanas e nos enxergam como tal? E a Europa e os Estados Unidos, como enquadram o Brasil?
A dificuldade dos brasileiros em se identificarem como latino-americanos tem algumas explicações; a primeira delas é a língua que dificulta a circulação de produtos culturais como música, literatura e cinema. O brasileiro tem dificuldade para entender o espanhol falado por seus vizinhos e por outro lado, nossos vizinhos não entendem o português.

Outra questão é o afastamento histórico do Estado Brasileiro em relação às republicas latino-americanas, iniciado na independência. O Brasil foi o único país a adotar um regime político monárquico, tendo como imperador um membro da família real portuguesa. Enquanto os outros países do continente, após a independência, enfrentavam guerras civis e conflitos decorrentes da implantação de um novo regime político, o Brasil ostentava uma ideia de ordem social, em que os conflitos eram reprimidos e não ameaçavam o poder constituído. O império brasileiro preferiu desenvolver uma política externa de aproximação com os países europeus e evitar alinhar projetos com seus vizinhos, além de cuidar para que as ideias republicanas fossem afastadas do território brasileiro.

Essa visão das repúblicas sul-americanas pelo Império Brasileiro, foi transportada para o discurso oficial que classificava nossos vizinhos como desorganizados, fragmentados, desordeiros e bárbaros. Nesta perspectiva o Brasil era a exceção de união, força e civilização na América do Sul.

A população dos outros países latino-americanos se enxergam como participantes de uma mesma comunidade. Os brasileiros são vistos como iguais, principalmente, por compartilharem os mesmos problemas, ou seja, má distribuição de renda, falta de infraestrutura, violência e outros.

O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo, possui um mercado consumidor importante; parque industrial ainda considerável e notável produtor de commodities. Esses fatores colocam o Brasil numa perspectiva diferente de outros países latino-americanos, especialmente se comparado com a América Central, na conjuntura global. No entanto, algumas instituições brasileiras ainda suscitam desconfianças no cenário internacional, situação que os países considerados desenvolvidos não enfrentam. O caso mais recente é o afastamento da presidente Dilma Rousseff que trouxe desconfianças sobre a democracia e o parlamento brasileiro. Para alguns, esse episódio nos lembrou que ainda somos a “República das Bananas”.

Com a ascensão de governos progressistas nos anos 2000, foram criados alguns organismos de integração regional, como a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América. Essas organizações contribuíram para fortalecer o sentimento de unidade e de comunidade em nossa região?
Acredito que essas organizações contribuíram, principalmente, para mostrar que é possível um caminho diferente daquele até então trilhado. É claro que muitas questões surgiram e ainda não foram superadas, mas assistimos um protagonismo das repúblicas latino-americanas nessas experiências. Se ainda não deram o resultado esperado, pelo menos são uma proposta de ação conjunta.

Natalia Lima de Araújo é mestranda do Instituto de Relações Internacionais da USP, onde estuda movimentos sociais transnacionais, e integrante da coordenação nacional da AMERI.


Fonte: Brasil no Mundo.

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