A arquiteta e pesquisadora Camille Bianchi fala ao Blog do FONARI

O FONARI conversou com a arquiteta e pesquisadora Camille Bianchi, cofundadora do Collectif Readymake. Camille falou ao nosso blog sobre o conceito de inteligência territorial, sua aplicação na Grand Paris e a descentralização do planejamento urbano na França. Confira a entrevista!

 

A inteligência territorial surgiu onde e como? Que necessidades ela vem suprir?

A inteligência territorial, pelo menos na França, tem a ver com a política de descentralização da governança. Historicamente, o planejamento urbano era executado pelo governo francês, mas nos anos 70, se não me engano, houve uma primeira tentativa de passar o planejamento e a gestão urbana do estado para as regiões, que são outro recorte administrativo – que seria como o governo estadual de vocês. Com isso esperava-se pegar os departamentos, que são recortes ainda menores incluídos dentro de uma região. Essas várias camadas de governança começaram a ter uma importância maior para o planejamento e isso realmente teve sentido a partir dos anos 90 – quando as regiões ficaram responsáveis pela emissão do que aqui seria o plano diretor de vocês. Na minha opinião, a inteligência territorial teve muito a ver com essas transferências de poder, porque a reflexão do planejamento urbano ficou mais acessível para pessoas que não faziam parte do poder político. E elas começaram a se interessar em mobilizar o conhecimento de profissionais que não estavam envolvidos nas redes políticas, mas que estavam trabalhando com questões territoriais. O melhor exemplo que tenho hoje é a pesquisa do Grand Paris, porque é a primeira deste porte a abordar a região parisiense inteira e ela mobilizou tantas pessoas distintas em termos de ferramentas e expertise profissional que acho ser o melhor exemplo contemporâneo.

E a Grand Paris começa em Janeiro do ano que vem?camille

Não, esta é a terceira fase que está em andamento. Começou na verdade em 2010, sob o presidente Sarkozy, e foi uma decisão do governo francês que queria incentivar a importância de Paris no âmbito internacional. É uma pesquisa internacional para repensar a cidade e o planejamento futuro da região até 2030.

Depois, quando a presidência passou para esquerda, teve a primeira mudança de governança da pesquisa – agora quem coordena é a região Île-de-France, ainda com o governo francês e o consórcio de munícipios da região parisiense.  A cabeça que dirige a pesquisa tem vários recortes políticos e é muito descentralizada. Em 2012, quando entramos, teve início a segunda fase, e entregamos o trabalho em 2013, quando começa a terceira fase.

Esta terceira fase tem um impacto mais internacional, pois a vontade dos coordenadores desta pesquisa é abrir um pouco estas questões com especialistas estrangeiros. Por exemplo, queremos montar uma parceria com São Paulo, devido aos trabalhos interessantes feitos por aqui e que tem um vínculo muito grande com o que a Grand Paris levantou.

Estamos falando em governança e você está dizendo que existe uma descentralização e que a inteligência territorial entende fluxos já descentralizados. A finalidade dela é mapear esses fluxos?

Não é só fluxo. Na verdade, ela tenta entender os movimentos territoriais em termos também de hábitos dos moradores; além de redes culturais, laborais e educativas. No que se refere à governança, ela é sim descentralizada. Por exemplo, na França, como temos muitos municípios, o funcionamento é um pouco diferente daqui – só na região de Île-de-France temos 1180 munícipios e na França toda temos 36.000. Imagine a quantidade de decisões que tem que ser tomadas e cada município tem que ter uma lei de zoneamento!  É um sistema espalhado de governança e precisamos tentar achar como podemos articular as questões e as intenções de planejamento na escala das regiões e até nacionais com os contextos localizados dos municípios que contam 500 ou 1000 habitantes e que estão fora destas questões internacionais. E essa é a proposta do ponto de vista que escolhemos: como incluir quem está fora dos grandes pensamentos de planejamento – como, por exemplo, os pequenos munícipios; as áreas periféricas; os territórios suburbanos, etc. E isso de certa forma para dizer que a governança é compartilhada e temos que achar esta forma de articulação entre várias camadas.

Então vocês estão pensando em articulações bem sofisticadas neste mapeamento…

Isso. É como usar esta técnica que se chama bottom- up e que se destina ao levantamento de   dados para entender como tudo funciona na escala local para, ao subir estas informações para uma escala maior de planejamento, conseguir incorporá-los à lógica de pensar o território geral. Geralmente, o que acontece é o contrário, o top-down, em que olhamos o território; tomamos decisões territoriais gerais e depois aplicamos isso na escala local. A nossa técnica, ao contrário, quer entender na escala local para depois criar regras de planejamento gerais.

Então é um processo prescritivo?

Falamos mais em elaboração de diretrizes do que de regras, que é uma noção um pouco rígida. Em francês dizemos prospectivo, ou seja, um entendimento futuro da evolução do território.

Vocês não estão constituindo uma autoridade metropolitana; vocês dão subsídios para ela.

Exatamente. Tem um debate que vai ser aberto daqui a pouco no âmbito da pesquisa, porque há a chamada Lei da Metrópole da Grand Paris, que será adotada em 2016. A Metrópole do Grand Paris é um novo recorte administrativo que inclui Paris e a primeira coroa dos munícipios periféricos ao redor da cidade. É uma lei importante, porque é a primeira vez que se pensa além dos limites administrativos da capital — é como se fosse uma “super Paris”. A lei está diretamente vinculada a esta pesquisa, porque como foi demonstrado há um sistema de fluxos territoriais que vai além das lógicas administrativas, que se movem sem necessariamente respeitar fronteiras municipais e têm uma lógica diferente da utilizada pela administração do território. É interessante porque existe uma dicotomia entre os dois: quem usa o território não é quem o administra. Há este problema de como juntar os dois e adaptar a administração do território a partir da sua própria forma de funcionamento. Isso traz eficiência em termo de planejamento e de entendimento econômico, porque você o entende como ele funciona de verdade; não como está administrado.

A lei do Grand Paris responde melhor à amplitude desta capital. Supera muito mais o limite de Paris e inclui em termos de fluxo de polaridade as cidades ao redor dela. Agora, tem um problema aí: ainda que para nós a questões dos territórios mais periféricos seja importante, eles estão fora deste recorte. Então esta lei vai resolver certos pontos, mas ela não vai responder a todas as perguntas que levantamos durante a pesquisa.

O que são os territórios periféricos? Seriam os subúrbios?

Os subúrbios na França correspondem ainda à mancha urbana, dentro da área metropolitana. Os territórios periféricos correspondem ao que chamamos de densidade espalhada, que têm densidade baixa; espalhada em territórios agrícolas ou industriais, podendo ser também pequenos vilarejos ou cidades-dormitórios.

Esta região ao redor der Paris obedece um comportamento radiocêntrico?    

Sim e é interessante. Como tivemos um sistema de governança muito centralizado antes, com o poder sempre em Paris, isso determinou o perfil de todas as redes de transporte; o viário; as polaridades de trabalho.

Houve várias tentativas de descentralização a partir dos anos 70, com a construção da chamada “Villes Nouvelles”, cidades espalhadas ao redor de Paris para desafogar a cidade.  Mas isso ficou dentro da macha urbana ainda. Não houve uma política de descentralização. A rede de transportes, por exemplo está configurada hoje de forma radiocêntrica. Mesmo quem quer se mover de subúrbio para subúrbio tem que passar de novo pelo centro de Paris, o que toma muito tempo, porque não tem um sistema rodoanel.

Agora tem um projeto que está em obra no qual a gente trabalhou chamado Grand Paris Express, o nome de uma nova rede de metrô rodoanel. Ela vai ficar na mancha urbana e vai abastecer o subúrbio sem passar pelo centro da capital. Será o maior projeto viário francês.

O que você relata é muito parecido com o que a gente sofre aqui em São Paulo, especialmente no que se refere à mobilidade. Na França, quais são os transtornos para a população da mancha urbana?

É um pouco parecido com o que acontece em São Paulo. Há um fluxo pendular muito forte que sai da mancha em direção à Paris e que, à noite, volta aos subúrbios.  Essa questão de como você espalha as polaridades econômicas para gerar atratividade dentro desses territórios é fundamental, porque tudo está centralizado demais, todo mundo vai para a capital, onde tem todos os serviços e onde o solo está muito caro. Mas a questão é como a gente pode desenvolver polaridades menores e mais distribuídas dentro do território. A ideia não é planejar a região toda como se fosse de uma característica urbana só; a gente tem que preservar as características de cada território. Por exemplo, o subúrbio, que é uma área mais agrícola com várias florestas ricas em recursos naturais:  não se trata de construir e tirar a natureza e propor novos empreendimentos fora da rede de abastecimento, de transporte etc. A ideia é considerar essas características territoriais e tentar adaptar novas forma de trabalhar e conviver nesses territórios – não tem como planejar da mesma forma a primeira mancha urbana e os territórios suburbanos. Não dá para colocar um metrô dentro dessas redes sobre esses territórios, porque não faz sentido e seria muito caro, porque são espaços enormes. Você tem que planejar de outra forma. E todo o trabalho que foi feito pela equipe do estudo era justamente entender qual leitura do território a gente tem que ter para achar ferramentas de planejamento diferentes das ferramentas que a gente tem para o centro de Paris ou para a primeira coroa.

Estamos falando de uma noção que vem para ajudar na grande escala. Mas a inteligência territorial pode ser usada em munícipios menores? Não para integrá-lo numa rede maior, mas para pensar especificamente no local?

Sim, porque a inteligência territorial tem uma versatilidade e pode mudar de escala e este é o objetivo dela também. De trazer um entendimento de várias escalas do território. Na escala do município é sempre interessante, porque é uma abordagem mais prática – você chega mais rápido à escala e pode passar para a fase executiva mais rápido, propondo um tipo de planejamento urbano ou periurbano. E aí temos uma capacidade maior de incorporar a ferramenta participativa. Falar com a comunidade, por se estar na escala do município, torna mais fácil traduzir os desejos dos moradores em ferramentas de planejamento. Claro que tudo depende dos desafios, das perspectivas e da demanda do seu cliente.

Só para fechar, você citou o caso da Grand Paris, que conhece a fundo, mas em quais outras cidades vocês estão empregando este conceito de forma bem sucedida?

Acho que em Bruxelas, que também tem esse plano; Londres; Amsterdã, onde eles fizeram um planejamento geral muito interessante; na América do Sul acho que não tenho conhecimento. Eu conheço mais casos europeus.

Nos EUA esse conceito é difundido?

Eu sei que fizeram alguns estudos para Nova York, mas era mais para gestão da água.

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