Representante da CAsas BRAsileiras de Refúgio e da ICORN no Brasil, Sylvie Debs fala ao Blog do FONARI

Apoiada no conceito de cidade refúgio e com a proposta de ajudar escritores perseguidos, a rede de cidades ICORN foi iniciada em 2006 em Stavanger, na Noruega. A rede já chama a atenção de alguns municípios brasileiros e coloca o país como o primeiro na América do Sul a ter uma cidade refúgio, a mineira Ouro Preto.

O blog do FONARI conversou com Sylvie Debs, representante da ICORN no Brasil e da CAsas BRAsileiras de Refúgio (CABRA). Segundo ela, a rede não é uma organização de refugiados e sim busca locais seguros para escritores perseguidos continuarem a viver e trabalhar. “Ao fornecer a um escritor convidado um lugar seguro para morar e estabilidade econômica durante dois anos, as cidades da rede ICORN fazem uma importante contribuição prática para a promoção da Liberdade de Expressão”, afirmou.

Leia abaixo a entrevista e entenda mais sobre como a rede vem se expandindo no Brasil.

A ICORN não se vê apenas como uma rede para ajudar refugiados. Como ela se percebe?

Consideramos fundamental perceber que ICORN não é uma organização de refugiados. A rede não têm autoridade sobre leis e regulamentos de qualquer país. Os escritores da rede ICORN não são refugiados, mas escritores perseguidos que recebem hospedagem em cidades refúgios. O conceito de “cidade refúgio” foi elaborado pelo Parlamento Internacional dos Escritores em Estrasburgo, na França [1993-2003], a partir da iniciativa de Salman Rushdie, ensaísta e romancista britânico de origem indiana, que foi condenado à morte pela fátua do Imam Khomeini, em 1989, depois da publicação de “Os Versos satânicos”.

Em 2006, a cidade de Stavanger [Noruega] criou a ICORN, uma organização internacional de sócios independentes, que hoje oferece 45 lares seguros, em vários países, para escritores que podem continuar se expressando de maneira livre. Desta forma, os escritores estão em segurança, mas não em silêncio. O Centro de Administração da ICORN serve como centro de comunicação para as cidades ICORN, geridas de forma independente. Ele facilita a cooperação entre as cidades membros, os coordenadores federais, estaduais e municipais, os coordenadores de departamentos de universidades, os diretores de festivais e eventos culturais e os escritores convidados.

O objetivo da ICORN é defender a liberdade de expressão, a solidariedade internacional, os direitos humanos e a democracia. De fato, escritores têm sido constantemente alvo de ameaças e perseguições por motivos políticos, e a rede acredita que é necessário que a comunidade internacional formule e implemente uma resposta adequada. Cada cidade refúgio se compromete em acolher escritores perseguidos, sabendo que cada escritor representa os inúmeros outros na clandestinidade, na prisão ou silenciados para sempre. Ao oferecer a um escritor convidado um lugar seguro para morar e uma estabilidade econômica durante dois anos, as cidades da rede ICORN fazem uma importante contribuição prática para a promoção da liberdade de expressão. Desde sua criação, a rede já hospedou por volta de 130 escritores.

Qual é o perfil das pessoas que a rede ajuda? Como são selecionados?

Os candidatos para o ICORN, até recentemente, são principalmente escritores. A palavra escritor envolve, sem limitar: romancistas, ensaístas, dramaturgos, poetas, bloggers, editores, tradutores, redatores, jornalistas e caricaturistas. Recebemos também pedidos para músicos desde 2014. O perfil das pessoas é definido em acordo com as cidades refúgio, quando elas integram a rede. É fundamental a cidade ter uma ideia clara do engajamento e das responsabilidades que isso significa: oferecer condições para inserir o escritor na vida cultural da cidade, agregando novos valores e benefícios para a comunidade de acolhimento. O escritor perseguido não é uma pessoa “assistida”.  Em troca do abrigo temporário e do apoio financeiro, ele contribui com a comunidade com seu trabalho e participação na vida cultural e intelectual. Os escritores continuam a luta pela liberdade de expressão fora do país de origem deles, utilizando a tecnologia atual e as redes sociais para traduzir, publicar e promover a literatura no mundo e o intercâmbio entre os povos. São verdadeiros embaixadores da cultura dos seus países de origem – eles trazem a cultura deles para o país de recepção, e são também difusores da cultura para seus países de origem. Vou lhe dar só um exemplo: o poeta iraniano Mohsen Emadi, que já esteve duas vezes em Ouro Preto, é diretor de uma antologia digital de poesia latino-americana traduzida para o farsi, o idioma falado no Irã. Assim, qualquer iraniano pode ter acesso a poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manoel de Barros.

Para a seleção dos escritores, a ICORN trabalha em estreita colaboração com a diretoria do PEN Internacional. Os aplicativos são enviados para os Escritores no Comitê da Prisão por uma avaliação completa. ICORN entra também em contato com outras organizações que trabalham para escritores perseguidos por referências ou avaliações e mantém contato com os candidatos aprovados para apresenta-los a cada cidade quando uma vaga para um escritor convidado está disponível. A decisão de convidar um escritor específico é feita exclusivamente pelas cidades. Por esta razão, ICORN não pode garantir que todos os candidatos aprovados serão convidados para uma cidade de refúgio.

sylvie

Como a rede vem se difundido no Brasil? Vocês têm encontrado interesse de cidade de que porte (pequena, média, grande)?

Vale a pena assinalar que a rede tem cidades que vão de 5.000 habitantes até 20 milhões. A nossa participação em encontros literários no Brasil (Curitiba, Rio de Janeiro, Teresina, Ouro Preto, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo), os nossos encontros com prefeituras e universidades, as entrevistas nos jornais, radio e televisão, o apoio do PEN Clube do Brasil e a nossa página nos permitiram uma divulgação razoável do conceito, assim como uma recepção positiva e entusiasmada por parte de cidades e universidades que visitei, desde 2014. A Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP já ofereceu quatro meses de residência na Casa dos Pesquisadores em Ouro Preto para um escritor, no segundo semestre de 2015. A Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e a Prefeitura de Belo Horizonte estão em negociações para buscar a melhor forma de conseguir juntar os pré-requisitos necessários e poderem hospedar escritores refugiados. Em Petrópolis, tem a Casa Stefan Zweig – o escritor austríaco exilado no Brasil, e a Casa Claudio de Souza, o fundador do PEN Clube do Brasil. Ambas as casas são muito ativas no campo cultural e demonstraram interesse de integrar a rede. No sul do país, a Prefeitura de Canoas (RS) também já deu sinais positivos. A Prefeitura de São Paulo está acompanhando de perto o desenvolvimento da rede e nos fez a proposta para que organizássemos um seminário de dois dias, em julho de 2015, chamando as prefeituras interessadas no projeto, os representantes da área cultural e das relações internacionais dos estados, bem como representantes de instituições federais, para trabalharmos juntos sobre as estruturas de acolhimento dos escritores perseguidos e a rede ICORN no Brasil. Ao integrar a ICORN, a cidade afirma seus valores democráticos e de defesa da liberdade de expressão no mundo como já fizeram a Cidade do México, Paris, Bruxelas, Barcelona, Frankfurt, Amsterdam, Estocolmo, para citar apenas algumas, criando essa rede de solidariedade internacional chamada ICORN.

A ICORN entende o Brasil como um lugar estratégico para consolidar a atuação na América Latina?

Segundo dados do PEN Internacional, temos por volta de 1000 escritores perseguidos no mundo. Este número pode crescer de forma significativa nos próximos anos. Em 2014, ICORN conseguiu hospedar 15 novos escritores entre os 70 pedidos de abrigo que recebeu. Precisamos de mais cidades no mundo para abrigar os escritores. Até hoje, a rede só conta com duas cidades na América Latina, ambas no México: Cidade do México e Oaxaca. Isso se explica pelo fato de o país ter uma forte política e tradição de acolhimento de exilados políticos, inaugurada pelo Presidente Lázaro Cárdenas (1895-1970). Penso que o Brasil, por ser um país de longa tradição de imigração e integração cultural, tem um papel estratégico na divulgação do conceito ICORN na América Latina. A defesa da liberdade de expressão, o respeito dos direitos humanos, o exercício da democracia, a tradição de hospitalidade, sendo valores defendidos pelo Brasil, torna-o um lugar adequado para ser o primeiro país da América do Sul a integrar a ICORN. É importante lembrar que o Brasil já recebeu escritores perseguidos, notadamente entre 1933 e 1945, sendo Stefan Zweig o mais conhecido dentre eles. É preciso lembrar também que, na época da ditadura [1964-1985], escritores e artistas brasileiros foram exilados e encontraram exílio em vários países do mundo.  Assim, o Brasil, por ter essa dupla experiência, sabe que nenhum país foge da ameaça de perder momentaneamente a sua liberdade de expressão, e que nesses casos, é preciso poder encontrar a solidariedade dos povos, encontrar países abertos ao refúgio e ao exílio, mantendo uma tradição humanitária e alargando o intercâmbio cultural. Como o Brasil é uma referência no continente, a CABRA (CAsas BRAsileiras de Refugio) pode servir de modelo para os outros países de América do Sul. Voltamos assim à importância da cidade de Ouro Preto – um símbolo da luta pela liberdade, que será a primeira na América do Sul a integrar a rede ICORN. Minha expectativa é que possamos conseguir, dentro de dois anos, implementar essa rede no Brasil e começarmos a organizar atividades culturais, como seminários, mostras, exposições, publicações e pesquisas ligadas a essa temática. Como as cidades refúgio trabalham em rede, temos também a possibilidade de realizar projetos internacionais, como o exemplo do filme documentário de Marion Stalens, “O silêncio ou o exílio”, rodado em 2012 e que apresenta quatro escritores perseguidos: Ma Jian (China), Mana Neyestani (Irã), Svetlana Alexievitch (Bielorrússia) e Horácio Castellanos Moya (Salvador) nas suas cidades refúgio. (http://www.youtube.com/watch?v=Ayb1px1tu04)

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