Kjeld Jakobsen fala para o Blog do FONARI sobre a área de Relações Internacionais nos municípios

As Relações Internacionais no âmbito das cidades vêm ganhando cada vez mais importância e interesse de gestores municipais. Muitos, no entanto, devem questionar a existência de uma área especializada em prefeituras de cidades de pequeno e médio porte, especialmente devido ao caráter de longo prazo desta política pública .

O Blog do FONARI conversou com o consultor de Relações Internacionais Kjeld Jakobsen, Secretario de Relações Internacionais de São Paulo entre 2003 e 2004. Além da atuação na capital paulista, Jakobsen  ofereceu  sua expertise na montagem de áreas internacionais em Belo Horizonte e, mais recentemente, na cidade de Contagem, onde está prestando consultoria por intermédio do IECint.

Para ele não existem pré-requisitos ou um tipo específico de município que comporte este tipo de estrutura. “Uma cidade que eventualmente não possua qualquer atração especial pode também se destacar por ser inovadora em certos aspectos de gestão ou pelos seus posicionamentos políticos”, avalia.

Leia abaixo a entrevista.

Para que um município conte com uma assessoria de Relações Internacionais existem pré-requisitos em relação ao contexto socioeconômico, localização em relação a polos industriais e tecnológicos? 

Em princípio não, pois para participar de redes internacionais de cidades e/ou de eventos internacionais não é necessário possuir requisitos especiais. Basta a vontade política, um certo nível de conhecimento e os recursos para financiar a participação. No entanto, há mais potencial para que uma cidade se torne interessante para estabelecer relações bilaterais com cidades do exterior na medida em que possua determinadas vantagens comparativas como, por exemplo, possuir um porto ou possuir atrações turísticas ou um parque industrial ou ser um polo de serviços e/ou cultural, entre outras facilidades que podem inclusive se combinar entre si. Uma cidade que eventualmente não possua qualquer atração especial pode também se destacar por ser inovadora em certos aspectos de gestão ou pelos seus posicionamentos políticos.

Como a sua experiência como Secretário de Relações Internacionais de São Paulo ajuda na hora de lidar com contextos tão diferentes ao da maior cidade do Brasil? Os parâmetros para analisar a conjuntura se diversificam?

Uma cidade com a dimensão de São Paulo desperta interesses e relações internacionais, mesmo se os gestores municipais não priorizarem este tema, pois inclusive existem instituições internacionais no local como, consulados, representações comerciais, ONGs, entre outras que demandarão contatos com a prefeitura. Seguramente há também interesses de governantes estrangeiros em visita ao país em conhecer a administração municipal, bem como interesse de empresas estrangeiras em realizar investimentos diretos. Portanto, o potencial para que a cidade se destaque na esfera internacional de governos locais é muito grande e facilita o trabalho dos responsáveis pelas relações internacionais do município. Durante minha passagem pela Secretaria de Relações Internacionais de São Paulo entre 2003 e 2004 buscamos aproveitar todo esse potencial, inclusive integrando iniciativas. Por exemplo, coordenávamos a Rede – 10 de combate à pobreza do Programa URBAL, mas seu orçamento não permitia financiar viagens e reuniões fora do Brasil. Para realiza-lo e potencializar esta rede nós buscamos recursos junto à Fundação Friedrich Ebert ou aproveitávamos alguns seminários promovidos pela UCCI. O que me ajuda no trabalho atual é a experiência adquirida naquela época, bem como os contatos com muitos companheiros(as) que ainda atuam na área.

No caso de cidades médias, como Contagem, e que possuem pouco acúmulo na área internacional é necessário construir um processo que irá maturar no médio prazo. Todavia, a motivação política, conjuntural e estrutural, para estabelecer relações internacionais é a mesma de São Paulo ou qualquer outra metrópole.

O que é necessário para que mais cidades brasileiras se internacionalizem? Como isso pode impactá-las no que se refere à atração de investimentos e troca de boas práticas com outras cidades do mundo?

Em primeiro lugar entender que as relações internacionais são uma política pública que requer um certo investimento para maturar e produzir benefícios para a cidade. Estes podem ser benefícios visíveis como a captação de algum recurso de cooperação técnica ou não tão visíveis, mas igualmente importantes, como o aprendizado advindo de um intercâmbio de boas práticas. Normalmente, as autoridades locais investem em relações internacionais na expectativa de que o investimento feito traga retorno financeiro ou investimentos diretos o mais rápido possível. Porém, é necessário entender que ninguém coopera ou investe onde não conhece. Portanto, um papel primordial da área internacional de qualquer município é projetá-lo no exterior apresentando tanto suas qualidades, quanto suas necessidades e objetivos.

Em segundo lugar, muitas políticas que geram problemas para as cidades, principalmente nos países em desenvolvimento como o Brasil, decorrem de decisões tomadas no âmbito internacional. Por exemplo, se a OMC ou outra instância semelhante, aprovar a liberalização de compras governamentais todos os governos municipais perderão a possibilidade de contribuir para a indução do desenvolvimento local por meio de seus próprios investimentos em compra de materiais ou em realização de obras. Portanto, o fortalecimento das diversas redes de cidades que existem é fundamental para a defesa dos interesses de todos e também para seus países, a exemplo do compromisso das grandes cidades reunidas na Rede Metropolis durante a Conferência Rio + 20 em 2012 de reduzir as emissões urbanas de CO2 em determinado percentual.

kjeld

Imagem: Ministry for Foreign Affairs of Finland

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