Artigo: Cooperação Descentralizada

Cooperação

descentralizada*

Rodrigo Perpétuo
Secretário Municipal Adjunto de
Relações Internacionais da
Prefeitura de Belo Horizonte
 

     O outono começa na Europa e a primavera no Brasil. A perspectiva do ciclo da natureza espelhada nas estações do ano foi o pano de fundo para a minha participação na reunião anual da Associação dos Profissionais de Relações Internacionais das Coletividades Territoriais Francesas (Arricod), realizada em Bordeaux nos dias 4 e 5 deste mês. O título da conferência, conhecida como “As Universidades de Outono da Arricod”, foi “o fim das ideias pré-concebidas”. A metáfora que se coloca, de outono na Europa, folhas caindo, vento forte anunciando um inverno rigoroso, e de primavera no Brasil, flores se abrindo, céu azul anunciando a alegria do verão, alude à atual realidade do mundo. Crise forte no Velho Continente, e prosperidade, em certa medida, no Novo Mundo. Nesse cenário, é muito importante considerar outros fatores. O primeiro deles é que o mundo contemporâneo é e será cada vez mais um mundo essencialmente urbano.

     Desde 2007, a maior parte da população mundial vive nas cidades e o aumento do contingente populacional nas urbes será exponencial. O segundo fator, em consequência do primeiro, é que o sistema internacional incorpora novos temas em sua agenda. Basta analisarmos os oito objetivos de desenvolvimento do milênio e as declarações da conferência Rio+20 e perceberemos questões como a mobilidade urbana, a produção e o consumo sustentáveis, o uso de energias e combustíveis renováveis, a reciclagem de resíduos, a educação, a saúde e o combate à pobreza na ordem do dia. Um desdobramento imediato desse processo é, por um lado, um reconhecimento global em relação ao papel estratégico das autoridades locais no século 21. Ainda com muita dificuldade em saber como operar com os governos subnacionais, as organizações internacionais começam a incorporar em suas declarações oficiais esse reconhecimento. E pouco a pouco aumentam a sua cooperação e o seu trabalho conjunto com prefeituras e governos regionais do mundo inteiro.

     Em complementaridade a todo esse movimento, os governos locais perceberam que são cada vez mais protagonistas do seu próprio processo de desenvolvimento. Não é mais possível esperar que o processo ocorra de cima para baixo. Ele deve ser endógeno. Começar nos bairros, nas comunidades, e alargar-se, contaminar positivamente o território. Uma interação necessária entre o local e o global. Talvez irreversível. Esse desenvolvimento deve significar qualidade de vida para a população e deve ser construído com a participação ativa dos diversos atores que atuam no território: empresas, ONGs, universidades, sindicatos. Portanto, a mensagem que levei aos colegas franceses, que persistiam falando da importância dos profissionais de relações internacionais durante os dias de conferência, foi uma mensagem mineira e primaveril. Não de advocacy, pois a importância dessa atividade profissional já está dada e reconhecida. Mas de trabalho, ou seja, de como os profissionais de relações internacionais, especialmente aqueles que como eu atuam em municípios, podem transformar todo esse potencial em ações que agreguem cada vez mais valor às políticas públicas que, ao fim e ao cabo, determinarão o padrão de desenvolvimento local e a qualidade de vida nas cidades.

*Artigo originalmente publicado no Jornal Estado de Minas no dia 20/10/2012

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